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O SENHOR PALHA
March 9th, 2012
Era uma vez, há muitos e muitos anos, é claro, porque as melhores histórias
passam-se sempre há muitos e muitos anos, um homem chamado Senhor Palha.

Ele não tinha casa, nem mulher, nem filhos.
Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo.
Ora o Senhor Palha não tinha sorte.
Era tão pobre que mal tinha para comer e era magrinho como um fiapo de palha.
Era por esse motivo que as pessoas lhe chamavam Senhor Palha.

Todos os dias o Senhor Palha ia ao templo pedir à Deusa da Fortuna
que melhorasse a sua sorte, mas nada acontecia.
Até que um dia, ele ouviu uma voz sussurrar:

— A primeira coisa em que tocares quando saíres do templo há- de trazer-te uma grande fortuna.

O Senhor Palha apanhou um susto.
Esfregou os olhos, olhou em volta, mas viu que estava bem acordado
e que o templo estava vazio.
Mesmo assim, saiu a pensar:

“Terei sonhado ou foi a Deusa da Fortuna que falou comigo?”
Na dúvida, correu para fora do templo, ao encontro da sorte.

Mas, na pressa, o pobre Senhor Palha tropeçou nos degraus e foi rolando
aos trambolhões até o final da escada, onde caiu por terra.
Ao levantar-se, ajeitou as roupas e percebeu que tinha alguma coisa na mão.
Era um fio de palha.

“Bom”, pensou ele, “uma palha não vale nada, mas,
se a Deusa da Fortuna quis que eu o apanhasse, é melhor guardá-lo.”

E lá foi ele, com a palha na mão.

Pouco depois, apareceu uma libélula zumbindo em volta da cabeça dele.
Tentou afastá-la, mas não adiantou.
A libélula zumbia loucamente ao redor da cabeça dele.
“Muito bem”, pensou ele.
“Se não queres ir embora, fica comigo.”
Apanhou a libélula e amarrou-lhe o fio de palha à cauda.
Ficou a parecer um pequeno papagaio (de papel), e ele continuou
a descer a rua com a libélula presa à palha.
Encontrou a seguir uma florista, que ia a caminho do mercado com o filho
pequenino, para vender as suas flores.
Vinham de muito longe.
O menino estava cansado, coberto de suor, e a poeira fazia-o chorar.
Mas quando viu a libélula a zumbir amarrada ao fio de palha, o seu pequeno rosto animou-se.

— Mãe, dás-me uma libélula? — pediu. — Por favor!

“Bem”, pensou o Senhor Palha, “a Deusa da Fortuna disse-me que a palha traria sorte.
Mas este garotinho está tão cansado, tão suado, que ficará certamente
mais feliz com um pequeno presente.”
E deu ao menino a libélula presa à palha.

— É muita bondade sua — disse a florista.
— Não tenho nada para lhe dar em troca além de uma rosa.
Aceita?

O Senhor Palha agradeceu e continuou o seu caminho, levando a rosa.
Andou mais um pouco e viu um jovem sentado num tronco de árvore,
segurando a cabeça entre as mãos.
Parecia tão infeliz que o Senhor Palha lhe perguntou o que tinha acontecido.

— Hoje à noite, vou pedir a minha namorada em casamento — queixou-se o rapaz.
— Mas sou tão pobre que não tenho nada para lhe oferecer.

— Bem, eu também sou pobre — disse o Senhor Palha.
— Não tenho nada de valor mas, se quiser dar-lhe esta rosa ela é sua.

O rosto do rapaz abriu-se num sorriso ao ver a esplêndida rosa.

— Fique com estas três laranjas, por favor — disse o jovem.
— É só o que posso dar-lhe em troca.

O Senhor Palha continuou a andar, levando três suculentas laranjas.
Em seguida, encontrou um vendedor ambulante a puxar uma pequena carroça.

— Pode ajudar-me? — disse o vendedor ambulante, exausto.
— Tenho puxado esta carroça durante todo o dia e estou com tanta
sede que acho que vou desmaiar.
Preciso de um gole de água.

— Acho que não há nenhum poço por aqui — disse o Senhor Palha.
— Mas, se quiser, pode chupar estas três laranjas.

O vendedor ambulante ficou tão grato que pegou num rolo
da mais fina seda que havia na carroça e deu-o ao Senhor Palha, dizendo:

— O senhor é muito bondoso. Por favor, aceite esta seda em troca.

E, uma vez mais, o Senhor Palha continuou o seu caminho,
com o rolo de seda debaixo do braço.

Não tinha dado dez passos quando viu passar uma princesa numa carruagem.
Tinha um olhar preocupado, mas a sua expressão alegrou-se ao ver o Senhor Palha.

— Onde arranjou essa seda? — gritou ela.
— É justamente aquilo de que estou à procura.
Hoje é o aniversário de meu pai e quero dar-lhe um quimono real.

— Bem, já que é aniversário dele, tenho prazer em oferecer-lhe a seda
— disse o Senhor Palha.

A princesa mal podia acreditar em tamanha sorte.

— O senhor é muito generoso — disse sorrindo.
— Por favor, aceite esta jóia em troca.

A carruagem afastou-se, deixando o Senhor Palha com uma jóia
de inestimável valor refulgindo à luz do sol.

“Muito bem”, pensou ele, “comecei com um fio de palha que não valia nada
e agora tenho uma jóia.
Sinto-me contente.”

Levou a jóia ao mercado, vendeu-a e, com o dinheiro, comprou uma plantação de arroz.
Trabalhou muito, arou, semeou, colheu, e a cada ano a plantação produzia mais arroz.
Em pouco tempo, o Senhor Palha ficou rico.

Mas a riqueza não o modificou.
Oferecia sempre arroz aos que tinham fome e ajudava todos os que o procuravam.

Diziam que a sua sorte tinha começado com um fio de palha,
mas quem sabe se não terá sido com a sua generosidade?

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